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“Prefiro ser fiel a mim mesmo e correr o risco de ser ridicularizado pelos outros, a ser falso e experimentar o meu próprio desprezo.”

— F. D.

A frase acima é de Frederick Douglass — um negro que nasceu escravo e foi separado da mãe ao nascer. Douglass se auto educou e acabou por se tornar líder do movimento abolicionista americano, ganhando notoriedade por seus escritos, sua oratória brilhante e sua defesa dos direitos da mulher. Ao ser criticado por suas tentativas de diálogo com proprietários de escravos, Douglass disse: “Me uno a quem quer que seja para fazer o bem e a ninguém para fazer o mal”.

Douglass e outros grandes homens me inspiram a nunca trair a minha essência, apesar da pressão da manada e das ameaças de ridicularização. Tento sempre fazer o que acho certo, mas sou aberto ao diálogo. O certo, para mim neste momento, é não votar em Bolsonaro, não me unir a ninguém para fazer o mal. No Haddad, nem preciso dizer, não é? Os dois são, nesta ordem, o segundo pior e o pior candidato a presidente nas eleições de 2018.

Mas os amigos partidários do voto útil não dão sossego. Tentam me convencer de que é um momento histórico, no qual até a aliança com Belzebu é preferível a um governo petista. Essa é uma falsa caracterização. Bolsonaro não é Douglass, nem Gandhi, nem Churchill. É um populista medíocre. E o Brasil não é a Índia Colonial ou a Inglaterra sob a ameaça nazista. O que vocês pretendem caracterizar como uma batalha entre o bem e o mal é, na verdade, a disputa eleitoral entre um partido corrupto, mas que diz algo a certa parte dos brasileiros, e um arrivista cuja subida à fama se deu não por suas qualidades, mas por ter conseguido catalisar o ódio contra o partido corrupto. Uma falsa dicotomia, pois há alternativas melhores.

Essa é a principal diferença entre quem vota em Bolsonaro e quem não vota em Bolsonaro. Respeito a sua escolha, mas entenda a minha. Sua prioridade é o combate à corrupção; a minha, o combate ao fascismo. Isso não quer dizer que eu seja corrupto ou você fascista. Você vê uma diferença substancial entre Bolsonaro e Haddad. Eu não. Acho Bolsonaro ligeiramente melhor, mas não o suficiente para me fazer abandonar a consciência. Meu pensamento é liberal, o de Bolsonaro não é. Ele votou contra quase todas as medidas progressistas tentadas para sanar as contas públicas e estabelecer uma economia mais liberal. Não se pode esperar algo diferente de quem passou os últimos 27 anos defendendo os direitos de uma única categoria. Essa de que o futuro ministro é liberal não cola, principalmente com um presidente autoritário. Bolsonaro faz a defesa da tortura, o que acho repugnante. O fato de pouca gente objetar isso mostra uma certa degradação moral do Brasil. Mas o pior, para mim, é a incerteza sobre as intenções de Bolsonaro de resguardar o bem mais precioso que temos, a democracia.

O Brasil é um país fraturado, dividido em duas classes por um mitômano corrupto e seu partido. Precisamos de um governo de reconstrução, apoiado pelo congresso, capaz de restaurar as bases da política e da cidadania. Isso não pode ser feito por alguém que é rejeitado por parte significativa da população. Há outros candidatos mais qualificados. Um deles levará o meu voto livre e consciente.

Sei que meu voto não fará diferença. Nenhum voto individual faz. Sei que meu candidato tem pouquíssimas chances de vencer. Estatisticamente, Bolsonaro já está eleito. Nada disso muda a minha opinião. Não quero parte nesse engano coletivo. Finalizo com um ditado em espanhol que, receio, se revelará profético: “Cría cuervos y te sacarán los ojos.”

Não me queiram mal.

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